03/12/2009

Uma excelente resposta

Há um programa de rádio americano daqueles que dão "conselhos" aos ouvintes, comandado por Laura Schlessinger. Em um dos seus programas, essa senhora abriu a Bíblia e bradou em alta e boa audiência que a homossexualidade é uma abominação! Não pode ser perdoada jamais! E citou como base de sua sentença o Levíticos 18:22.

Um ouvinte prá lá de porreta escreveu a carta abaixo que retirei agora do site Desconcertos. Vejam que excelente resposta:

“Cara Dra. Laura


Obrigado por ter feito tanto para educar as pessoas no que diz respeito à Lei de Deus. Eu tenho aprendido muito com seu show, e tento compartilhar o conhecimento com tantas pessoas quantas posso. Quando alguém tenta defender o homossexualismo, por exemplo, eu simplesmente o lembro que Levíticos 18:22 claramente afirma que isso é uma abominação. Fim do debate.



Mas eu preciso de sua ajuda, entretanto, no que diz respeito a algumas leis específicas e como seguí-las:



a. Quando eu queimo um touro no altar como sacrifício, eu sei que isso cria um odor agradável para o Senhor (Levíticos 1:9). O problema são os meus vizinhos. Eles reclamam que o odor não é agradável para eles. Devo matá-los por heresia?



b. Eu gostaria de vender minha filha como escrava, como é permitido em Êxodo 21:7. Na época atual, qual você acha que seria um preço justo por ela?



c. Eu sei que não é permitido ter contato com uma mulher enquanto ela está em seu período de impureza menstrual (Levíticos 15:19-24). O problema é: como eu digo isso a ela? Eu tenho tentado, mas a maioria das mulheres toma isso como ofensa.



d. Levíticos 25:44 afirma que eu posso possuir escravos, tanto homens quanto mulheres, se eles forem comprados de nações vizinhas. Um amigo meu diz que isso se aplica a mexicanos, mas não a canadenses. Você pode esclarecer isso? Por que eu não posso possuir canadenses?



e. Eu tenho um vizinho que insiste em trabalhar aos sábados. Êxodo 35:2 claramente afirma que ele deve ser morto. Eu sou moralmente obrigado a matá-lo mesmo?



f. Um amigo meu acha que mesmo que comer moluscos seja uma abominação (Levíticos 11:10), é uma abominação menor que a homossexualidade. Eu não concordo. Você pode esclarecer esse ponto?



g. Levíticos 21:20 afirma que eu não posso me aproximar do altar de Deus se eu tiver algum defeito na visão. Eu admito que uso óculos para ler. A minha visão tem mesmo que ser 100%, ou pode-se dar um jeitinho?



h. A maioria dos meus amigos homens apara a barba, inclusive o cabelo das têmporas, mesmo que isso seja expressamente proibido em Levíticos 19:27. Como eles devem morrer?



i. Eu sei que tocar a pele de um porco morto me faz impuro (Levíticos 11:6-8), mas eu posso jogar futebol americano se usar luvas? (as bolas de futebol americano são feitas com pele de porco).



j. Meu tio tem uma fazenda. Ele viola Levíticos 19:19 plantando dois tipos diferentes de vegetais no mesmo campo. Sua esposa também viola Levíticos 19:19 porque usa roupas feitas de dois tipos diferentes de tecido (algodão e poliéster). Ele também tende a xingar e blasfemar muito. É realmente necessário que eu chame toda a cidade para apedrejá-los (Levíticos 24:10-16)? Nós não poderíamos simplesmente queimá-los em uma cerimônia privada, como deve ser feito com as pessoas que mantêm relações sexuais com seus sogros (Levíticos 20:14)?



Eu sei que você estudou essas coisas a fundo, então estou confiante que possa ajudar. Obrigado novamente por nos lembrar que a palavra de Deus é eterna e imutável. Seu discípulo e fã ardoroso.”

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02/12/2009

Quando o Sol devora...


Estou aqui olhando para esse céu nublado, ouvindo o barulho dos ônibus na minha conturbada já a esta hora da manhã Brigadeiro Luis Antônio. Num belo esforço de ouvido, somos todos músicos em São Paulo, posso até escutar um passarinho - é quase miraculosa a presença deles em alguma parte, não me perguntem onde...



Para começar o dia, continuo na leitura de ontem à noite. O romance - e que texto, meus caros - de José Américo de Almeida. Aquele (infelizmente pouco lido hoje) que inaugurou o ciclo regionalista brasileiro: A Bagaceira, escrito em 1928, um pouquinho depois de Os Sertões - indispensável.



Assim, depois de tomar meu café da manhã, abro o livro e caramba! Tá um calor danado aqui dentro: "O Sol que é para dar o beijo de fecundidade dava um beijo de morte longo, cáustico, como um cautério monstruoso", explica Zé Américo.



Tomo um gole d'água. Acompanho as lágrimas de Soledad que tinha "uma cara.. (que cara!...) de mulher bonita com raiva" e rio das divagações de Lúcio, menino de tudo, filho de um fazendeiro que acabou de dar guarita à família retirante de Valentim.



Ah, Valentim... Homem guerreiro de mesmo nome do meu avô (é impossível eu não me apaixonar por ele): "A gente sai por este mundão sem saber pra onde vai. Quanto mais anda, menos quer chegar. Porque, se fica, está de muda e tem pena de ficar. E, enquanto anda, pensa que vai voltar".



E vou pelas andanças da sua gente. O coração aqui espremido pela angústia de Pirunga que quando pequeno "corria pra mãe num berreiro de borrego enjeitado. E ela voltava do pátio. Enganava, prometia mundos e fundos (coitada! o que é que ela podia prometer?), e era sair de novo, o menino se desgoelava, até ficar roxo, estatelado no chão".



É de uma beleza esse texto... Aquela que respinga, sem uma gota d'água, da página. Respinga o amarelo da vegetação seca, da nuvem de poeira, dos galhos cotovelos de folhas estaladas. Respinga seco, cortante, fervendo de Sol, o cenário desolador e o debater da força - as últimas forças - da gente que tenta extrair da terra o alimento.



E começo essa quinta-feira ciente de que a natureza é má. Porque protegida pelas montanhas de cimento, substituído o vento pelo ar condicionado, a tônica num copo de gelo alto. É fácil esquecer... Sim, tá uma nuvem boa aqui pelo céu, o passarinho continua cantando (espero que não apenas na minha cabeça). Também existe o mar (que saudade...), as ondas e o vento. Também existe a chuva num gramado, pés descalços lá em Boituva, interior de São Paulo com seus homens pássaros.



Mas é fato. Não dá para avançar nessas páginas sem sentir medo e pensar: o que é essa tal falada natureza. Bom, volto a elas mais tarde. Vou deixar o Sol guardado sobre a mesa. E como leitura boa é alimento, quem estiver com fome de texto forte e denso, dê uma procurada em A Bagaceira. E a máxima "ler de novo vale a pena" é sempre válida. Nada como a vida para formar bons leitores.



E antes de fechar essa nota, tenho que postar a introdução do próprio José Américo explicando sua obra. É um barato isso daqui... Algo no espírito de "antes que vocês falem bobagens a respeito da minha história, deixa eu explicar o que fiz"...



Acompanhem:



"Antes que me falem


Há muitas formas de dizer a verdade. Talvez a mais persuasiva seja a que tem a aparência de mentira.



Se escapar alguma exaltação sentimental, é a tragédia da própria realidade. A paixão só é romântica quando é falsa.



O naturalismo foi uma bisbilhotice de trapeiros. Ver bem não é ver tudo: é ver o que os outros vêem.



A alma semibárbara só é alma pela violência dos instintos. Interpretá-la com uma sobriedade artificial seria tirar-lhe a alma.



Há uma miséria maior do que morrer de fome no deserto: é não ter o que comer na terra de Canaã.



É um livro triste que procura a alegria. A tristeza do povo brasileiro é uma licença poética...



Os grandes abalos morais são como as bexigas: se não matam, imunizam. Mas deixam a marca ostensiva.



O regionalismo é o pé-do-fogo da literatura... Mas a dor é universal, porque é uma expressão de humanidade. E nossa ficção incipiente não pode competir com os temas cultivados por uma inteligência mais requintada: só interessará por suas revelações, pela originalidade de seus aspectos despercebidos.



O amor aqui é um tudo-nada de concessão lírica ao clima e à raça. E um problema de moralidade com o preconceito da vingança privada.



Um romance brasileiro sem paisagem seria como Eva expulsa do paraíso. O ponto é suprimir os lugares-comuns da natureza.



A língua nacional tem rr e ss finais... Deve ser utilizada sem os plebeísmos que lhe afeiam a formação. Brasileirismo não é corruptela nem solecismo. A plebe fala errado; mas escrever é disciplinar e construir...



Valem as reticências e as intenções.


O Romancista"


(Trecho extraído de A Bagaceira - José Américo de Almeida - Ed. José Olympio - 42.ed.)



E pra fechar, obviamente:

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29/11/2009

Resumo da semana...

Segunda

Dentro do supermercado, caixa-eletrônico do Banco do Brasil, o vidro todo estilhaçado, fios de fora. Al Qaeda? Corredores cheios. Classe média indo e vindo carregada de penduricalhos. Então, a moça magrinha, cabelo preso, a sombra azul sobre os olhos, Marilene em letras garrafais no crachá:

"Ouvi o berreiro, o dinheiro não soltava, saque de cem reais. "Ela tá me roubando", o homem berrou. Levei um susto, menina... Não precisava, né? Pegou o banquinho com as duas mãos e tacou aqui. Foi vidro pra todo lado, já pensou criança por perto?"

E aí?

"Polícia."

Mas a máquina que engoliu o dinheiro!

Vermelhinho e intacto, o caixa 24h ao lado, estava trêmulo. Cuspiu o dinheiro tão apressado, que pudesse, enfiava um copo d'água com açúcar no lugar do cartão. Acho até que veio a mais...

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Quarta

Esquina, aguardando carona.

Você tem fogo?

Quase dois metros, todo de preto, uma costeleta à lá Elvis, imundo e um bafo de cachaça tremendo.

Eu sou cantor.

Sorri.

Quer me ouvir?

Fila imensa de carro, meu chefe atrasado, dois reais no bolso.

Canta aí...

"E de repende o seu olhar
Eu vi um céu
Ahhhh ...
A me iluminar"

Lobão!
Tu gosta?
Pô!

Deu uma voltinha, cambaleando...

"E eu nem consigo mais dormir
Se você não está
Ahhhh ...
e você não está..."


Então ajoelhou, braços abertos...

"Sua pele faz
Um bem me faz
Tão bem me faz
Eu preciso tanto de você..."


Decididamente, o mico do ano.

POR FAVOR NÃO VÁ
SÓ VOCÊ NO AR
COM VOCÊ NO MAR
EU PRECISO TANTO DE VOCÊ...

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Sexta...

A mulher desceu do táxi, saia curtíssima, salto alto, echarpe...

A senhora ao lado olhou de cima abaixo e suspirou pra mim, indignada, como quem diz, "essa é puta".

Fiquei na dúvida... Calor insuportável.

Menino de bicicleta, buzina de caminhão, pneu de carro, carrocinha e carrinho de pipoca, não teve quem não olhou e vários buzinaram.

Impassível, a mulher encostou na guia.

Ônibus? Que nada! Queríamos era saber quem estava chegando para pegá-la. Confesso aqui, a cena era boa... Aquele silêncio ruidoso da boa moral indignada... É divertido, sexo movimenta as pessoas.

A senhora ao meu lado no ponto, bufava mandigas...

Mas São Paulo é matreira... Eu gosto dessa bandida!
De pirraça soprou um vento e a echarpe da mulher descolou do pescoço. Deu de cair pertinho do ponto.

"Barbaridade!"

Foi só o que ouvi. Uma delícia.

A moça estava de coleira. De couro e com uma guia prateada descendo feito trança grossa sobre os ombros.

Abaixou e pegou a echarpe na maior estica.

Que olhar, meus caros... Que olhar...

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Domingo

(ao longe, música natalina)

O fantasma não é ruim.

Os fantasmas nunca morrem.

Eles só migram de um corpo para o outro...

Larga de ser sacana...

(um floquinho branco no ar)

Se a gente mata o fantasma, a paixão acaba.

Você está vendo o fantasma, não a pessoa...

Vou parar a terapia.

Por quê?

Terapia mata os fantasmas...

Você é doida? Por que está querendo ver fantasmas?

(dois, três, quatro floquinhos...)

Que porra é essa?

É a neve!

Ai, comi um...

Cadê você?

Não é neve! É detergente...

Fecha a boca!

(uma nevasca de espuma espessa...)

Que horror... Estão ensinando tudo errado para as crianças...

É Natal...

Estamos no Brasil!

Nossa neve é quente...

É detergente, cacete...

Não importa, é como se fosse neve...

Lá vai você começar tudo de novo...
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27/11/2009

Uma crônica bonita do Hatoum

"Numa tarde distante vi o rosto de uma moça na janela de um ônibus cinza, empoeirado, um dos ônibus feios e velhos de Brasília. Esqueci a feiura do ônibus, por uns minutos esqueci que eu era um dos passageiros de um outro ônibus cinza e feio. Mas não esqueci que eu devia saltar na Avenida W3-Sul.

Enquanto os dois ônibus andavam lado a lado, eu olhava os olhos claros de um rosto que me olhava, um rosto moreno e triste, mais bonito que triste. E que céu o de Brasília: azul sem manchas. Uma pintura perfeita. E brilhava naquela tarde nervosa.

Meu ônibus ficou para trás, vi que o outro ia parar na rodoviária e então interrompi meu itinerário, saltei no setor hoteleiro e caminhei até a Rodoviária."

O trecho acima faz parte de uma crônica linda do escritor Milton Hatoum, "Sob o Céu de Brasília", publicada hoje e maravilha, disponível no portal do Estadão.

Hatoum fala de um rosto que viu naquele tempo em que "todo mundo desconfiava de todo mundo". E constata, quarenta anos depois: "Um corpo e um olhar que mereciam um poema, mas só agora me dei conta disso".

Poesia é isso. Fiquei aqui pensando nessa beleza que a gente deixa passar. Às vezes até mata, dizendo que a vida é assim mesmo e ponto final. Enfim... Vejam o texto do Hatoum, vale parar e voltar com ele na rodoviária de Brasília, em 1969.
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23/11/2009

Vivendo e aprendendo...

Você trabalha o dia todo. Corre e desce. Sobe e senta. Aí chega em casa, toma um banho e vai escrever algo bacana no seu blog. Antes, cisma em verificar o e-mail e eis que se depara com o mundo bizarro. Não resisto, mas tenho que escrever sobre o que acabo de ler.


Enviaram pra mim o link de um site muito gostoso chamado Gastrolandia. Inocente, acreditando que veria uma receita gostosa e fácil aqui para postar depois para vocês, me deparei com a imagem abaixo. Observem com atenção:




Um simples pudim vocês dirão... Ora, meus caros, há mais mistérios no mundo do que sonha nossa vã filosofia... Leiam a introdução de Natural Harvest - A Collection of Semen-Based Recipes, obra de Fotie Photenhauer, de onde o Gastrolândia retirou essas imagens e fez a gentileza de traduzir a pérola abaixo:



“Sêmen não é só nutritivo mas também tem textura maravilhosa e incríveis propriedades culinárias. Tem produção gratuita e está disponível na maioria, senão em todos, os lares e restaurantes. E mesmo com todas as qualidades, o sêmen ainda é negligenciado como comida - este livro espera mudar isso“.



É isso mesmo, esse pudim tem entre seus ingredientes esperma humano. Não me perguntem onde.

Querem ver de novo?




Se Magritte estivesse entre nós abandonaria o cachimbo e diria "Ceci n'est pas un pudding!" O fato é que esperma virou alimento. Não que não fosse antes,

mas agora é oficial. Relaxem meninas, está liberado. Da condição de aperitivo eis que os milhares de

espermatozóides passaram a prato principal. Só tenho medo que o ingrediente entre em extinção.



Canibalesco? Um pouquinho. Nojento? Certamente. Mas o mundo é vasto e diz o autor das receitas que tudo é uma questão de prática: "o sabor e aroma do sêmem são melhor apreciados quando o gourmet está apto para comparar e discutir o assunto com outros connoisseurs". A ciência é realmente fantástica!



Daí que como admiradora da arte culinária, fiquei pensando:



1. O modelo vem junto durante a degustação do prato? Só estou perguntando porque no vinho tem toda aquela teoria da rolha, de pé ou deitada, tempo de armazenamento...



2. Como a safra é classificada? Por exemplo, varietal ou assemblage? Há perda da qualidade se for vinho de corte? E funciona a máxima quanto mais velho melhor?



3. E para a dona de casa que deseja inovar no prato da família em pleno domingão... Qual a melhor forma de colher a matéria-prima sem perder suas propriedades nutritivas (e sem ser chamada de devassa)? Figura-se infelidade solicitar a ajuda do vizinho?



4. Dá pra fazer pedrinha de gelo e colocar no Martini?



5. E uma última observação: quantos rapazes (ou que homem é esse?) foram necessários para alimentar a sede da moça que bebeu o suco abaixo?




Não precisa fazer careta, estou brincando... Nesse suco, foram utilizadas três pequenas colheres de sêmen, uma rapidinha inocente...



Enfim, fica a dica. Quem quiser inovar na cozinha e testar as receitas com a participação efetiva dos membros da família, compre o livro através do site do autor...

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20/11/2009

Dia da Consciência Negra

Aos que ainda não compreendem a importância desse 20 de novembro para o Brasil, Dia da Consciência Negra, data do assassinato do grande herói brasileiro, Zumbi dos Palmares...

Aos que ainda acham que por aqui não existe preconceito racial, que a política de cotas nas universidades é bobagem...

Deixo aqui, trechos de notícias publicadas na mídia online, que escancaram o racismo, a maior de todas as vergonhas deste país.

Para ler a íntegra das matérias, clique no título:


"Nesses dois anos [2006 a 2007], cerca de 60 mil negros foram assassinados e cerca de 30 mil brancos. As pesquisas mostram que entre as crianças e jovens de 10 a 24 anos se constata a maior diferença entre os homicídios de negros e brancos. Marcelo Paixão [economista da UFRJ] afirmou que os jovens negros estão mais expostos e que as desigualdades só aumentaram nos últimos anos. "É preciso identificar que as causas disso estão relacionadas ao racismo institucional, às políticas de segurança pública que ainda entendem a população negra como inimiga do estado, à baixa qualidade da escola desses jovens, que está relacionada com uma maior exposição à pobreza; quer dizer, é um círculo de desgraças." (UOL, 11.11.09)

70% dos jovens assassinados são negros

"Segundo estatísticas de 2000, 16 crianças e adolescentes foram assassinados por dia, em média. Desses mortos, 14 tinham entre 15 e 18 anos. Nessa faixa etária, 70% eram negros. 'Se somarmos as 14 mortes por dia, é mais de um Boeing a cada duas semanas, sendo a maioria formada por negros', afirmou Cenise [Monte Vicente, da Unicef], referindo-se à tragédia com o vôo 1907 da Gol, que vitimou 154 pessoas. "É importante investigar as causas da tragédia do Boeing. Mas, em relação a essas mortes [de jovens e negros], a gente não tem a mesma atitude e vigilância. Alguma coisa está errada." (FSP, 15.10.06)


"Um dado importante fornecido é que o tráfico humano é predominante entre as mulheres negras que tem faixa etária de 15 a 27 anos. No Brasil, existem mais de 240 rotas do tráfico humano. As vítimas são levadas para países da América do Sul e da Europa, destacadamente a Espanha e Alemanha. As mulheres negras são vítimas não apenas do tráfico humano, mas também do desemprego e da violência doméstica." Veja também "Um guia para brasileiras no exterior. (Causa operária, 19.09.09)
"De acordo com a pesquisa, as práticas discriminatórias têm como principais vítimas os alunos, especialmente negros, pobres e homossexuais, com médias de 19%, 18% e 17% respectivamente para o índice percentual de conhecimento de situações de bullying nas escolas". (Ação Educativa, 21.11.09)

"O salário médio da mulher negra com emprego formal, por exemplo, é menos da metade do que o salário de um homem branco. De acordo com a Relação Anual de Informação Social (Rais), do Ministério do Trabalho, a mulher negra ganha, em média, R$ 790 e o salário do homem branco chega a R$ 1.671,00 - mais que o dobro." (Agência Brasil, 15.08.09)
"Embora trabalhem mais, os negros têm rendimento quase 50% menor que o dos trabalhadores brancos. Um relatório organizado pela CEPAL (Comissão Econômica para América Latina e Caribe), pela OIT (Organização Internacional do Trabalho) e pelo PNUD aponta que, em 2006, 35% dos pretos e pardos tinham jornada superior às 44 horas semanais estabelecidas na Constituição, mas recebiam, em média, 46,8% menos que os brancos — grupo em que 34,4% tinham jornadas excessivas". (PNUD, 11.09.08).

"No biênio 2005-2006, cotistas obtiveram maior média de rendimento em 31 dos 55 cursos (Unicamp) e coeficiente de rendimento (CR) igual ou superior aos de não-cotistas em 11 dos 16 cursos (UFBa). Na UnB, não-cotistas tiveram maior índice de aprovação (92,98% contra 88,90%) e maior média geral do curso (3,79% contra 3,57%), porém trancaram 1,76% das matérias, contra 1,73% dos cotistas. Dados do Censo Educacional de 2005 do MEC mostram ainda que instituições públicas realizam, em média, 331 mil matrículas anualmente. Apenas 2,37% (cerca de 7.850) delas são destinadas a estudantes negros, segundo o Ipea." (JB Online, 25.05.08)


"O partido Democratas ajuizou uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o sistema de cotas raciais da Universidade de Brasília (UnB). Na ação, feita pela procuradora no Distrito Federal Roberta Fragoso Kaufmann, o partido pede que as cotas raciais sejam declaradas inconstitucionais e que sejam suspensas as matrículas de alunos cotistas aprovados no último vestibular da UnB". (Congresso em Foco, 21.07.09).
"Para [Ivair Augusto dos Santos, pesquisador da UnB] esta situação se deve a policiais e delegados que desaconselham a vítima a prestar queixa, alegando que este tipo de fato não seria tão grave. Em 29 de setembro deste ano, entrou em vigor a lei 12.033, que dispensa a necessidade de um advogado para formular uma representação contra o seu ofensor. "Você poderia perdoar a pessoa no meio do caminho ou haver a retratação, mas agora o Ministério Público tem obrigação de levar até o final, mesmo que a pessoa que abriu o processo não queira mais", relata o advogado." (eBand, 20.10.09)

"Igrejas neopentecostais incorporam em suas celebrações elementos de religiões demonizadas por elas. Mas ver a própria tradição cultural ser usada de forma distorcida não é o que incomoda mais. 'Se um filho ou neto vai procurar trabalho usando colar de contas, símbolo de nossa religião, não consegue emprego. Se está empregado e se veste de branco na sexta-feira, para louvar Oxalá, também perde o emprego. Nossos rituais, por exemplo, são proibidos nos hospitais' [afirma a mãe-de-santo de candomblé Kika de Bessem]." (FSP, 14.12.03)

"A principal conquista da secretaria [Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial - SEPPIR] é o ambiente criado no Brasil que possibilitou o aumento da autoestima do negro. Hoje, segundo o Pnad [Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, do IBGE], 50,6% da população brasileira se declara negra, uma regulação da questão da identidade' [disse o ministro Edson Santos]." (R7 Notícias, 20.11.09)

Para denunciar o racismo, a SEPPIR conta com uma ouvidoria.
O telefone é (61) 3411-3695
E-mail: seppir.ouvidoria@planalto.gov.br
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17/11/2009

Fim dos tempos?



Eis que o mundo novamente desaba, o povo sai correndo pelas ruas, casais de namorados se abraçam agachados, o céu fica cheio de fumaça e do nada, um pai de família - o egoísta que irá se ajustar até o fim do filme - salva o mundo. Bem vindos a 2012.

Vocês já devem ter percebido que tomei um banho de cinema comercial recentemente. É uma experiência bacana para sair falando depois. Mas é fato, meus caros, o fim do mundo anda muito entediante nas telas do cinema. E como estamos ainda sentindo as consequencias dessa tremenda crise financeira, a maior nos últimos cem anos, acho que não veio à toa a representação de uma terra rachando de Norte a Sul do globo.

O mais importante é que tem um bando de economistas dizendo que não dá mais desse jeito, propondo uma outra forma de dividirmos o que produzimos, entenda-se de uma maneira mais racional e mais justa. Aliás, há um blog excelente sobre o tema chamado Crise e Oportunidade que vale a visita. Dele destaco um artigo em especial, do prof. Ladislau Dowbor que explica de uma maneira muito didática (e bem irônica) nossas ilusões sobre o PIB; e uma bela entrevista com a economista Tânia Bacelar a respeito das desigualdades regionais no Brasil. Sou fã absoluta dessa mulher.

Mas, voltemos ao fim do mundo:

Preciso comentar a pérola do diretor de 2012, Roland Emmerich, que também produziu Independence Day, Godzilla, O Dia Depois de Amanhã. Ele disse em entrevista publicada no portal Terra: "Espero realmente que seja o último, porque não sei mais o que destruir!" Vou confessar uma coisa aqui, eu espero que ele pare mesmo, porque fiquei muito puta de ver o Cristo despencando lá no Rio. Só brasileiro tem o direito de sacanear com a nossa estátua mor. Que história é essa de derrubar nosso Cristo assim sem mais nem menos?

E vocês podem me achar insensível, mas não senti medo durante o filme. O medo veio mesmo ao entrar no google e jogar "2012". Estou brincando aqui, mas a paranóia é grande. Começa lá nos maias que diziam que a Terra tem cinco ciclos e já passou por quatro. Estamos no quinto - o último portanto - que acaba em 21 de dezembro de 2012. Passa também pela teoria do alinhamento cósmico: a cada 26 mil anos, o Sol e o centro da Via Láctea se alinham, supostamente isso levaria à Terra a uma mudança do seu eixo, com todas as consequencias catastróficas que vocês podem imaginar. Lembrem-se que hoje giramos um pouquinho inclinados

E há outras idéias mais divertidas. Aquela do astro míope, correndo pelo espaço, para colidir com a Terra. Inclusive, já acharam um bando de candidatos: tem um asteróide (2003 QQ47) que poderia chegar por aqui, não em dezembro, mas em março de 2014; outro poderá vir no começo do próximo século, mas nesse caso, esqueçam grandes emoções, já estaremos todos mortos. Sem falar dos extraterrestres - sim, eles sempre estão na pauta - que já estão entre nós, observando-nos faz um tempão, para separar o joio do trigo daqui a pouquinho.

Falando sério...

O que é bom lembrar e aí sim deveria haver um filme a respeito, é que as mudanças climáticas estão visíveis a olhos nus. Essa é a pauta e quem leu notícia internacional nessa semana, viu o que está se transformando a Conferência de Copenhague que deveria ser "o momento" para que a redução dos gases poluentes fosse finalmente levada a sério.

Há, inclusive, uma entrevista muito bacana publicada no El País com o diretor do Greenpeace, Kumi Naidoo, que merece ser lida. Ele conta como a COP 15 está sob ameaça de se transformar num G2 (EUA e China). Ao invés da gente se preocupar com o fim do mundo, deveríamos é exigir o que nos cabe agora.

E vejam que até a NASA está irritada com 2012. A Sony para divulgar o filme criou um site, o Instituto da Continuidade Humana, que promove até eleição para uma liderança mundial pós 2012 caso alguém sobreviver! É surreal. O problema, alega a NASA, é que tem gente querendo se matar antes, principalmente os mais jovens... Êta povo ansioso. Não dá para esperar três anos e um mês?

O que nos resta...

Vejam bem, três anos é considerado o tempo que dura uma paixão, aquela conta físico-quimíca que fazem os especialistas no assunto, então dá para terminar a vida com aquela ilusão boa, sentindo-se um superhomem ou uma baita mulher e ainda fazer planos, por exemplo, dado o fim do mundo, não haverá maiores consequências em entrar num financiamento que dure vinte anos...

Dito tudo isso, confesso que perdi o pique de colocar aqui trechos do Apocalipse - minha proposta original - e comentar que até hoje não escreveram triller mais assustador do que esse. Aquelas cornetas arrepiam... Enfim, deixo para a próxima, pelo visto muitos asteróides povoarão nosso imaginário até o próximo século.

E peço licença para exercer o meu direito à la Pollyanna e terminar essa nota com um baita elogio à vida. Não tenham dúvidas, sim, estou falando da Nona Sinfonia de Beethoven! Chega de morte, pelo menos até 2012...


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16/11/2009

Vampiros & Al Pacino...

É impressionante como os vampiros realmente não morrem. Desconheço personagem mais coerente com sua própria história do que este. Pensem bem, eles desaparecem e de tempos em tempos, simplesmente invadem as telas, capas de caderno, canções nas rádios e a imaginação dos milhares de adolescentes do globo.

A lenda é simplesmente genial e a transgressão a maior desde que o mundo é mundo: a imortalidade. Porque os outros pecados já viraram carne de vaca, todo mundo usa e abusa da cartilha. Mas infelizmente temos que morrer, não adianta. Quem não o fizer vai ficar por aí, vagando e se alimentando da vida alheia.

E algo me diz que a imortalidade nos deixa perversos. Mas vamos aos filmes... Recordo que na minha época, foi a vez do delicioso Drácula de Bram Stocker (1992), seguido de Entrevista com o Vampiro (1994) com seu trio imbatível: Tom, Brad e Bandeiras cabeludos. Já ontem, pipoca no colo e sobrinha do lado, a conclusão: nós éramos um tantinho mais carnais (e cruéis).

Nunca duvidei que Drácula fosse mau e bom, lindo e pavoroso, humano e animalesco. O grotesco é inevitável nesse caso; e o mais terrível é que a gente torce por ele, perfeito predador, amante furioso, durante o filme de Coppola. Já em Entrevista com o Vampiro, a dupla Lestat e Louis, o perverso e o bonzinho, caminha unida num todo prá lá de complexo. Aquela cena em que Cruise aparece definhando sob a imobilidade de Louis é simplesmente macabra. Na minha modesta visão, os dois se complementam...

O doce reino dos bestsellers...

Então, eis que acostumada com essa miscelânea saguinária, caí de páraquedas, já que não tenho asas de morcego, na placidez dos vampiros pós-modernos. A mania agora é Crepúsculo e Lua Nova. Filmes que se baseiam nos best sellers de Stephenie Meyer. Em outra palavras: uma disputa editorial entre o bruxo Potter e o vampirão Edward.

E eis que ali, na TV, recebi uma descarga romanesca. Aliás, só mesmo no cinema. O amor romântico há muito saiu fugido da literatura. Após o casório de Mme. Bovary, sua casa chama-se entretenimento. Não à toa, ele vive livre, leve e solto nos cinemas e telenovelas. É sempre o mesmo enredo: alguma coisa atrapalha o grande amor e dá-lhe peripécias para que o casal fique junto no final.

Por exemplo, ninguém vai comentar o day after da pobre Bella. Já pensou um cara do lado que nunca dorme? E se aparecer uma afta na boca durante um beijo? E um maridão imortal com ciúmes? Manhã cedinho, aquela vontade desperta da natureza feminina e uma mão geladona pelas partes quentes? E ainda por cima, o cara lê a mente?! Sejamos razoáveis, dez anos após a paixão, esse é o pior dos mundos...

Mas voltando ao meu sábado com pipoca. Nas milhares de continuações que terão esse filme - é gostoso de ver - acredito que só vai dar certo quando a moça oferecer aos dentões do garoto o seu belo pescoço. Ou melhor, como ele é um gentleman (os vampiros deveriam escrever um manual de sedução para os machos humanos), ela terá de convencê-lo a morder com gosto.

E não é isso que todo vampiro quer?

Eis ali, a velha história, aquele postergar da mordida à la Eden que acontece quando o afeto atrapalha o banquete dos predadores. Conclusão: os dois vão tentar ficar juntos, afinal, o rapaz é bonzinho e por sorte da menina, sua família é vegetariana, ou melhor, só come carne animal.

Enfim, isso daqui é só para constatar a quantas andam os morcegos no início do século XXI. Jogando beisebol... Indo à escola... Curando as pessoas... Matando os inimigos - entenda-se, os vampiros mais animalescos. E um protesto! Cadê aquele baita predador charmoso que carrega mil séculos de experiência? Que vampiro mais melancólico vai compor os desejos da minha sobrinha! O que vai acontecer com essa menina?!

Bom, dizem que tudo é uma questão de estilo...

Mas esse tal de Edward não vai conseguir nunca dar a gargalhada do All Pacino - que não era um vampiro, mas um baita de um demônio. Tudo bem, o garotão tem lá o seu charme, é cheio de ética, o que também é sedutor...

Enfim, que seja múltiplo o imaginário da sétima arte. E nesse mundo virtual, este aqui do não-lugar onde estamos todos metidos, antes de descobrir que alho não espanta predador algum, escolham:

Mordida realista?


Ou romântica?


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11/11/2009

É noite de temporal...



Gosto do escuro. Nele, vultos adquirem intensidade. Ontem, por exemplo, em São Paulo - um dos vários Estados que durante quatro horas passaram por um blecaute - o corpo denso da noite despencou céu abaixo. Nunca imaginei que as luzes artificiais sustentassem as estrelas mais alto.

Primeiro o incômodo. Conforme as nuvens se adensaram, conjecturas, fobias, excentricidades. Seres humanos são estranhos. Na realidade, estava num restaurante, tomando a famosa sopa do Vila Távola, quando me deparei com o mundo das trevas.

Pelo que li foram milhares de raios que deram de atacar nossas linhas de transmissão elétrica. Imaginem que descarga de energia maluca. Fosse capaz de escrever ficção científica seria ontem, 10 de outubro, que meu ser viajante no tempo voltaria ao passado (ou veria o futuro) à la Michael J. Fox.

Mas apaguemos as luzes das telas. Uma boca faminta do espaço durante cerca de quatro horas devorou qualquer retórica frente à praça Dom Orione no Bixiga. Daí que descobri: a praça se esconde atrás da luz.

Eram árvores sombrias, uivos de cachorros, estalar de passos. Era o vento e o vento e o vento na mais completa escuridão, entrecortada pelos faróis ligeiros dos carros. Reconhecer, embora estranhando o espaço. Fobia de um "quando voltaremos a enxergar" ou seria "até onde podemos ver"?

Resultado: mergulhamos no breu.

São Paulo, de repente, fechava as pálpebras. Da secura luminosa à umidade das sombras. Mas, pescadores que todos somos - urbanos ou não, basta nadar em água escura - sabemos que brilho é olho de peixe.

Por isso, apesar do incômodo - sim, todos os passos doeram - algo veio nessa rede. De repente, o tempo revelou-se interminável. Era exatamente aquele o compasso. Vejam só, logo ele que sempre escapa...

Estava ali, moleque, pulando na Praça. Denso e palpável. Lúdico. Eu toda dele e ele tanto em mim. Será que é esse o segredo? Quando o tempo acelerar, apagamos as luzes?
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09/11/2009

R.E.Meeting - 14.11

Aos fãs de R.E.M.:



Paixão é coisa estranhíssima, aquela descarga químico-física frente a um simples mortal de carne e osso, dois olhos, um nariz e uma boca... Agora, incógnita mesmo é quando essa febre do corpo e alma (não que ambos caminhem apartados) acontece em relação a um fã por uma banda.

Pode ser uma música na rádio, uma imagem na TV ou até mesmo na capa de revista. O que desperta o impacto? E não precisa ser um cantor bonitão não... Lembro até hoje de uma amiga que era simplesmente tarada pelas calças de couro do Lou Reed! Quando o marido estava junto e ouvia o comentário, repetia "eu não uso isso não".

Agora, o interessante é quando essa paixão dura anos. Por exemplo, o que leva o cidadão a gastar uma nota para ver o mesmo show quatro vezes em várias cidades, numa mesma temporada? É o mesmo show! "Não é", garantiu minha grande amiga Renata Alves, ano passado. Uma maratona que acompanhei via celular pasma: “até onde vai essa maluca?”

Na realidade, eu acabei atrapalhando os planos da Renata na adolescência. Éramos colegiais e dependesse dela, hoje, seríamos balzaquianas em plena turne internacional, na nossa banda Notre Dame. O problema é que não saí do refrão da Asa Branca na gaita - diga-se de passagem o meu refrão é maravilhoso, mas há 15 anos estou presa nele - e a Rê, companheira também nos momentos difíceis, abdicou da banda e se tornou nutricionista (aliás, essa menina é expert no assunto).

Enfim, a vida toma rumos imprevisíveis... O fato, meus caros, é que há vários fãs de R.E.M neste país. Tanto é que no próximo sábado eles vão se reunir num meeting, com direito à banda cover (Oi Wood!!) , objetos, fotos e muito bate papo na Livraria da Esquina B - a que fica na Barra Funda (veja mais informações em: http://www.remeeting2009.blogspot.com/).

Se você é fã dos caras, gosta ou queria saber mais sobre, vá até lá. Além de muito bem recebido, haverá um bando de malucos que sabem tudo de R.E.M prontos para falar. Talvez, nisso, a paixão dos fãs dure mais do que as individuais: eles a compartilham. É um tal de contar aqui e ali. De ouvir e tocar e mais tocar e ouvir.

Será esse o segredo da paixão eterna?


Renata Alves, em um dos shows (ela foi em todos) do R.E.M no Brasil ano passado

Para tentar explicar um pouquinho esse amor coletivo, a voz de quem entende do assunto: minha amiga, Renata Alves, que vocês podem encontrar diariamente no Orkut, ela é moderadora de duas comunidades sobre a banda.

Rê, explica o que é ser fã?

Fã não se explica. Parando racionalmente para pensar, o que é você gostar de alguém, que muitas vezes não te conhece e só está realizando o trabalho dele?! Além disso, pensando mais racionalmente ainda: por que raios você se dispõe a fazer coisas completamente fora de propósito (na opinião de toda aquela parcela da humanidade que se acha ‘normal’, mas cada qual com sua mania), por essa pessoa que muitas vezes sequer sabe de sua mísera existência e do seu esforço? Não sei se isso define fã, mas você pode ser fã de uma pessoa, de algo, de uma comida, do time de futebol. Todo mundo é fã de algo, de único ou de vários. É o amor por algo, que muitas vezes te representa. E aquele amor de malandro: você sofre, mas é apaixonada!

E por que R.E.M.?

Aí, mais uma pergunta difícil... E o pior, é que sou fiel. SOU FÃ de R.E.M. 
Gosto de outras bandas, tenho CDs e vídeos, mas, aquele que acompanho, somente R.E.M. Como disse anteriormente, acho que você se apaixona por aquilo que te representa. E o R.E.M. representa minha adolescência, o som que gosto, a ideologia que aceito. Falando do trabalho deles, é um grupo que começou de rapazes e hoje já são uns senhores, rs. Mas isso é demonstrado no trabalho musical, como amadurecimento. Nos palcos, continuam tendo o pique da juventude. Músicas dos primeiros álbuns têm sempre um ar de novo, ainda mais quando recebe esse pique ‘ao vivo’. Além da possibilidade. O R.E.M. sempre tenta a ‘possibilidade’: já fizeram álbum experimental, álbum ‘rocker’, álbum ‘político’. A mesma música pode ser tocada hoje com o lead vocal ou pelo backing vocal. Pode ser gravada em álbum como ‘lenta’ e ganhar ‘velocidade’ nas apresentações. Bom, e os olhos azuis e a boca do Michael Stipe contam também, rs.

O que você diria ao Stipe no tête-à-tête?

Que adoro o trabalho deles, que os acompanho há 15 anos. Também espero que ele tenha gostado do público brasileiro pois queremos que eles retornem quando for possível, os fãs vivem em depressão pós-show.

Se alguém quiser saber mais, quais as comunidades existem?

Existem várias comunidades do R.E.M. e de seus integrantes no Orkut, mas sou moderadora do R.E.M. Brasil e do R.E.M. Kitchen. Foi ótimo poder ter contato com diversos dos membros das comunidades, que são legais, inteligentes e dispostos a trocar informações e materiais. Sem contar a ajuda mútua, durante os shows da banda aqui no Brasil, no ano passado.

O que as pessoas vão encontrar no meeting?

O R.E.Meeting é um encontro de fãs e daqueles que conhecem e gostam da banda (já que ‘fã’ e ‘pessoas que gostam’ são coisas diferentes, rs). Na verdade, este é o segundo meeting. O primeiro foi realizado no dia 09/11, em SP, no dia de ‘pausa’ de shows da banda na tour “Accelerate” no Brasil. As pessoas terão oportunidade de ver vídeos, participar do “This Quis Is On” (perguntas referentes à banda), comprar / trocar / vender materiais no “Carnival of Sorts” e curtir um show da banda-tributo (não é cover!) R.E.Manics, formada por fãs de 3 estados! Além disso, conhecer outras pessoas que apreciam as mesmas coisas.


R.E.Meeting
14/11 - a partir das 21h
Livraria da Esquina "B" - R. do Bosque, 1236 - Barra Funda - São Paulo

E pra quem não foi...

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